segunda-feira, janeiro 20, 2020

Pertencer-se


Ela pensou ser capaz de alcançar aquilo que estava além da margem do horizonte que pela janela conseguia enxergar. Ela pensou que nunca se sentiria entre amarras e sombras, dentro de uma caverna. Ela pensou que poderia fazer piada, mas no início ela não acreditou que a piada poderia ser ela e que ao sumir o mundo enfim poderia descansar. 
Ela acreditava ser capaz de ganhar qualquer jogo que lhe mostrassem, ganhando todas as peças do tabuleiro. Pensou que poderia transformar qualquer coisa em arte e defender-se até mesmo do que for raivoso e indomável, semelhante ao que Alexandre fez com seu Bucéfalo ao dominá-lo. Ela pensou que teria os mesmos cachos dourados e que seria uma grande guerreira. Ela pensou que estava pronta pra ser alguém que está sempre pronto a lutar.
A menina pensou que precisava ter sempre a melhor armadura e a melhor espada. Ela pensou que deveria tentar sempre ser maior que o mundo e que somente conquistando tudo poderia se encontrar. 
Talvez seja necessário recuperar a consciência e reunir todas as peças perdidas em uma gaveta. Talvez seja necessário limpar as teias e o pó daquilo que ainda restou de si mesma dentro dela, pondo-se a sua própria disposição. É necessário sacudir-se ao vento e correr solta como as crianças correm no gramado. É necessário dar-se um tempo e uma segunda chance de se reconquistar. 
Menina, corra! Corra como se não houvesse amanhã e como se não houvesse nenhuma voz que pudesse lhe comandar. Corra, sem medo de arriscar, sem medo de tentar entender a si mesma, sem medo de mudar. Não haverá prêmio para quem cruzar a linha de chegada depois de um trajeto sem percalços e chegar em primeiro lugar. Não há segunda chance, nenhum olhar de aprovação vai substituir a alegria de pertencer-se. 
Os sinos ainda vão tocar. Eles vão anunciar que o fim chegou e, quando isso acontecer, não poderemos voltar atrás. Um dia tudo se transformará em poeira. Um dia as estrelas vão parar de brilhar nos olhos dela e o jogo vai acabar. 

Quem sabe, um dia ela aprende a cantar, a gritar sem sentir dor, a correr sem olhar para trás e, principalmente, a voar sem cair.


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