segunda-feira, novembro 18, 2019

Pedra no sapato


Não chove já faz um certo tempo. O dia agora é sempre quente e a noite segue agoniante, entre cobertas enroladas e uma cabeça que sempre pesa mais que o corpo inteiro. 
Ela deixou de sair e de ouvir os pássaros cantarem naquele mesmo tom que ouvia em sua infância. Ela já não sabe distinguir quando pensa por si ou quando alguém está ali falando por ela, fazendo-a acreditar que tudo é mesmo sempre assim. A menina já não sabe cuidar das flores. A menina já não sabe ver o mundo com o olhar de antes. Ela não sabe nem o que, afinal, havia naquele lugar em épocas passadas e nem ousa se lembrar do que costumava cantar quando nada era tão complicado assim. 
Quando o dia amanhecer ela vai se sentir mal, mas vai tentar outra vez. Quando o dia amanhecer, ela vai sentir o ar quente em seu rosto e o sol vai lhe queimar novamente. Ela não desejará sair. Quando o dia amanhecer, ela tentará não ser Sísifo carregando a mesma pedra em um ciclo sem fim. Por fim, quando o dia amanhecer, ela escutará desonestidades e falsos julgamentos sobre ela e, como costumava agir em outra época, somente se calará e fará mais uma vez suas obrigações. Ela é uma pessoa normal, nada ali é especial, mas ela também não é, de fato, menor que ninguém. 
Paredes de gelo, construídas em cima de outro solo, mantidas com o mesmo alicerce e acabadas com crueldade e cinismo. Ninguém sabe de nada, ninguém é maior que ninguém em lugar nenhum, mas todo mundo pensa ser sempre bom, sempre o único que foi injustiçado e merece mais direitos e possui menos culpa. 
Todos nós sentimos, todos nós vamos crescer, todo mundo um dia aprende, ela não é menos do que você e o que ela faz, sozinha, sem ajuda de ninguém, não tem nada de mal, todo mundo também pode fazer. Não é sobre certo e errado, não é sobre merecimento e privilégios, não é sobre evoluir. 
Tudo, no fim, é sobre respeitar, porque todo mundo vai sentir. 

Algumas palavras que ouvimos são como uma pedra no sapato que a gente não pode parar para tirar e segue doendo. A gente pensa que pode suportar e que vai até esquecer se continuar, mas na realidade não vai e aquilo machucará cada vez mais.

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