Zero


E a menina voltou a aparecer. Voltou porque algo a chamou aqui. 
O dia amanheceu calmo, a rede balançava, os pássaros voavam de seus ninhos em busca de comida e, lentamente, a pequena menina despertava. Ela abriu os olhos, estes, por sua vez, claros como a luz que vinha da janela. O vento a chamava para longe. Ela se aprontou e saiu.
As pessoas, naquela imensidão espantosa, não estavam dispostas a conversar e nem mesmo a cumprimentar a menina e os outros passantes. A verdade é que todos viviam em mundo privado e egoísta onde se achavam portadores da melhor personalidade e do melhor talento além de, claro, serem o próprio sol desse mundo imaginário. A pequena continuou a andar, insistindo a atravessar vielas e a pular por cima das poças enlameadas daquele chão irregular.
Sem perceber, ela acabou perfurando a bolha na qual vivia e, inimaginavelmente, a felicidade se estampou em seu olhar. Desde quando se sentia a vontade para cruzar a avenida de cabeça erguida? Desde quando ela começou a ter essa ânsia por espalhar vozes, e gostos, e sentimentos por aí? Sim, a menina já não era a mesma e não sabia explicar quando foi que os novos ares chegaram.
Finalmente a pequena observou que não haviam mais lágrimas para serem derramadas, pois já não havia motivo para tanto. Olhando para frente e acabando com a irrealidade dos fatos, ela pôde entender que não se pode controlar uma vida inteira e nem mesmo passar panos quentes nas palavras que desejamos nunca termos pronunciado. Ela descobriu que ainda tinha um coração e não precisou olhar nos olhos de ninguém para constatar esse feito. Descobriu também o quão nobre um sentimento pode ser. Entendeu que não existem coisas que tramem a favor ou contra o que sentimos. Tudo o que sentimos nos domina e lentamente passa a existir, com a mesma eficácia de um pássaro que constrói seu ninho para se abrigar do inverno próximo.
Os sentimentos pulsam e simplesmente não precisamos de um líder, de influência, de talento. Tudo o que precisamos é de coragem para admitir que temos conosco algo de tamanha intensidade.
O tempo que algo assim dura? Uma vida. Uma vida bem vivida.
Zero sim. Começamos outra vez, assim como um dia novo começa a cada amanhecer.

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